Acerca de ¨Netuno e as Faunas¨(6)

“No vasto campo/escuro, noturno/argentino/se apaga/e se acende/o milagre”. E se eu falasse agora para alguém que não soubesse, que um pirilampo é uma luciérnaga, daria no mesmo. Isso explica por que a tradução de Paola Arbiser parece, ora o mesmo livro, ora o outro, em um idioma diferente. Faz um truque de mágica e já não é possível se diferenciar o ritmo entre um e outro, assim como não é possível se distinguir entre o rumor de uma onda e o da outra. Então, é isso: que a poesia é forma, luta de forma, mas não só isso; é também, e principalmente, vontade de forma (e é música e sentido, e o que está por fora do sentido, e aquilo que não pode ser definido e acontece…e mais). Flaubert decidiu que no século 19 a prosa substituiria a poesia no que diz respeito à busca pelas formas e as estruturas. Como aquele conto em que o barqueiro precisa entregar seu remo a um outro para se libertar da maldição de remar sem descanso, era tão fácil para a poesia se libertar da obrigação de representar a literatura e a ordem que devia ao mundo (o
papel de professor de escola, de triste deus de igreja), como, simplesmente, soltar o remo e entregá-lo para a prosa. Mas talvez o barqueiro sinta falta de seu remo. “Onde guardo esse momento/azul e morno/tênue fresco/ou luminoso/ quando as luzes/de algo que parece com a melancolia/se apagam?”, pergunta-se Nicolás García Sáez. Literatura é liberdade, mas a poesia é a liberdade da
liberdade, e isso também é um duro fardo, como quando o cavalo-marinho deixa ir sua descendência porque é esse seu destino, embora não seja seu desejo. “O parto/de um cavalo-marinho/é assombroso/pai, mulher/deixa ir à deriva/o fruto de seu esforço/ musgo terra baldia de água suja/treva de mel embravecida pela maré/o que pensará/um cavalo de mar?” Assim como a prosa é um
exercício de liberdade, a poesia é sua contemplação. Entrega-se a poesia como se dá educação aos filhos, brincando de sermos mais sábios. A gente não sabe mais sobre a vida, mas faz de conta que sabe, e assim esperamos que os leitores imitem a arte e acabem sendo livres. Essa é nossa fé. Nossa brincadeira. A nova poesia, a poesia que se escreve no presente, brinca de duvidar de si mesma porque ela já não está presa à forma, às correntes ou às gerações, porque, hoje, pouca gente a observa e sabe identificá-la e, como
acontece com os unicórnios, confiamos no que nos contam acerca dela, e inventamos entre todos seu nome e sua forma. Netuno e as faunas é a irrepetível contribuição de seu autor. Ele brinca de não fazer poesia no ato de fazê-la, e é, assim, jogador e poeta.*

*Rebeca Tabales / Traducción al portugués: Paola Arbiser / Editorial Oliverio