Acerca de ¨Netuno e as Faunas¨(3)

Netuno e as faunas abre o universo tal como ele foi aberto pelos primeiros deuses cada madrugada: o momento exato em que apareciam os primeiros raios de algum sol, em alguma caverna do fundo do mar, em alguma esquina escura de uma noite interminável. Abre o universo com um som, com um estalo, com um gesto mínimo, quase imperceptível, de maneira gentil e arrogante. Página após página, expande um horizonte abissal sobre cujo reflexo mar, sobre cujo reflexo cordilheira, vemos dançar os pares, sempre um e o mesmo, sempre ninho e semente, celebrando o nascimento de cada nova pequena besta. Presencia-se, do alto, um cavalo-marinho flutuando no prado. Quem lê Netuno e as faunas é partícipe desse primeiro suspiro, torna-se aprendiz de uma cartografia ainda fresca, com os dedos acariciando cada verso finda sua abertura, conclui sua expansão. É a cada virada de página que o que está a nascer se conforma, como um punhado de células flutuando na escuridão abre espaço no ventre materno, como duas placas tectônicas colidem para fazer crescer em milhares de anos uma nova colina. Aqui, neste lugar e tempo amarrado ao ritmo, amarrado à rima, neste cosmos que, entre outras coisas, é apelação à música, é possível experimentar junto ao monge o som/de uma flor/ou o aroma/de uma cor. No começo era o som, no começo era o estalo, no começo era a harmonia entre as partes, e a esse começo retorna quem lendo cria, quem criando reformula. Assim, das mãos do primeiro habitante, entra no lago quem lê, seguindo a luz intermitente e sempre milagrosa de um pirilampo, ciente do que lhe espera: uma orgia de aromas/que nega a existência/de imagens e bússolas/apontando com certeza/para a surpresa/de qualquer sem-razão

Keila Vall de la Ville / Traducción de Paola Arbiser / Editorial Oliverio